Edição 07 com Martha Medeiros

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Fotos: Daniel Martins

Texto: Lisiane de Assis

 

Martha Medeiros no Divã

A autora do livro que originou peça, filme e série fala sobre trajetória, carreira e a liberdade que representa completar cinquenta primaveras

Com 25 anos de carreira, Martha Medeiros é, de longe, um dos nomes mais queridos e lidos da literatura gaúcha. A publicitária que virou escritora por pura sensibilidade e tato, cativa seus leitores através de seus textos sobre cotidiano, vivências, relacionamentos, enfim, tudo o que é comum a todos nós em nossa existência diária e, por conseguinte, passível de identificação.

Mantendo o costume da leitura desde sempre, cedo adquiriu, também, o hábito da escrita. Assim como muitas gurias hoje criam seus blogs, por hobby rabiscava seus poemas em cadernos, ainda na época de colégio, sem a menor pretensão. Não foi aluna “cdf”, mas também não tirava nota baixa. Criada cercada de livros e música, buscou uma profissão que estivesse associada à arte. Publicidade e Propaganda foi uma alternativa que poderia contemplar algumas vertentes como fotografia, cinema e literatura, além de proporcionar sua independência, que para ela viria como sinônimo de liberdade.

Aos 22 anos, apesar do pudor em compartilhar seus escritos, criou coragem e resolveu enviá-los a Caio Graco Prado, da Editora Brasiliense, de São Paulo, com o intuito de, primeiramente, descobrir se o que escrevia era poesia, pois até então, nem sabia ao certo. No primeiro momento o editor demonstrou interesse, porém não poderia publicá-la de imediato. Até que em um belo dia, deu-se o “conto de fadas”, como a própria descreve. “Strip-Tease” foi publicado em 1975, saindo, inclusive, por uma coleção que a autora admirava muito, que lançava escritores já renomados. Após a façanha, prosseguiu com a carreira de publicitária e, mantendo o costume de escrever somente por paixão, lançou mais dois livros.

Algum tempo depois, uma mudança de ares provocou mais uma mudança em sua carreira. Foi com o marido – que ia a trabalho – para o Chile e deu uma pausa na profissão de publicitária, mas não deixou de escrever. Porém, dessa vez aventurou-se pela crônica. Em visita, um amigo Jornalista resolveu trazer ao Brasil uma de suas crônicas, que acabou sendo publicada no jornal Zero Hora. Novamente sem nenhuma pretensão. O público gostou, mais textos foram publicados e, quando se deu por conta, tinha ganhado suas próprias páginas como colunista. “Foi tudo muito sem planejar, não foi uma ambição minha, mas eu considero uma sorte ter tido essa guinada na vida”, revela. “Achei que faria isso sempre como um hobby. Daí a ter realizado o sonho de tornar isso profissão foi luxo dos luxos”.

Hoje, com uma boa quantidade de livros publicados, alguns adaptados para o teatro, cinema e televisão, a gaúcha esbanja simplicidade e simpatia. Apesar da consagrada carreira e renome que conquistou até aqui, é gente como a gente. Não tem nenhum tipo de assessoria, atende ao telefone, marca seus próprios compromissos profissionais, leva e busca a filha na escola, faz compras no supermercado, vai ao banco. Segundo ela mesma, é chata como qualquer outra mãe, cobra as notas no colégio, se preocupa com a alimentação das filhas.

Na vida profissional, se considera uma pessoa de sorte. Não é para menos, pois parece que tudo o que Martha toca vira ouro. Não só seus livros, como suas adaptações, independente do meio para qual sejam estendidas, caem nas graças do público de maneira quase unânime. O maior expoente deste leque que se abriu a partir dos livros talvez seja “Divã”, que saiu das páginas para os palcos do teatro, para as telonas do cinema e para a televisão em forma de seriado. Martha conta que quando autoriza uma adaptação de um trabalho seu, delega totalmente e só assiste o resultado final junto com o público. Apesar de saber que sua história e personagens ganham uma nova roupagem, se desprende por completo das diferenças que possam ter entre a obra de sua autoria e a que resultou da adaptação. “Tu tens que ter o desapego para aceitar que o ator vai dar a contribuição dele, o diretor a dele, cada um vai dar uma leitura ao trabalho, que vai ter uma outra cara, que não é mais a tua”, constata. Ela ainda destaca a grande divulgação que as adaptações podem propiciar, muitas vezes, para um público não leitor. “Imagina o seriado “Divã” na televisão. Quantas pessoas que assistiram e talvez nem soubessem da existência do livro. Porque olha o alcance da televisão, que chega à tanta gente que não tem nem como comprar um livro. Então eu me sinto muito grata”.

A chave para tamanho sucesso, talvez seja a grande capacidade que suas histórias têm de provocar a identificação com o público, por tratarem de um assunto bem trivial: as relações humanas. Este fato está tão evidente, que a frase que mais costuma ouvir dos leitores é: “Martha, parece que tu lês meus pensamentos”. A escritora conta que chega a ouvir esta frase de sete a oito vezes por dia. E quem acha que a cronista toca somente as almas femininas, está muito enganado. De acordo com Martha, as manifestações via internet do público masculino, ultimamente, andam maiores do que as do público feminino. Atenciosa, se coloca na obrigação de responder a todos os e-mails que recebe, sem exceção. E para ela, não existe um segredo para a popularidade. “É difícil a gente julgar. Não tem uma fórmula. Eu acho que tenho uma linguagem comunicativa, acessível, trato de assuntos que interessam a todo mundo. Então acho que as pessoas se sentem menos sozinhas quando lêem coisas que têm a ver com o que elas sentem”, acredita.

Para ela, um dos maiores prazeres que a profissão proporciona é poder trabalhar em casa. Adora a flexibilidade de fazer seus próprios horários, pegar uma sessão de cinema a qualquer hora da tarde e deixar para trabalhar à noite, ou marcar uma viagem a lazer no meio da semana, adiantando os textos previstos para entrega. Outro fator que, em sua opinião, causa encantamento nesta área é a possibilidade conviver no meio de grandes ídolos e, mais do que isso, partilhar da mesma profissão. E ainda para Martha, ser escritora por si só é um grande prazer. “É um trabalho lindo, porque é a expressão de nós mesmos que compartilhamos com um monte de gente. É mágico isso, preservar a tua privacidade e, ao mesmo tempo, estar socializando com pessoas que tu nunca conhecerias”, afirma.

Completando cinquenta primaveras, realizada na profissão e com uma carreira consolidada, chega à fase da vida em que, para ela, representa uma liberdade tremenda. Isto porquê, comparando com a juventude, em que diversas escolhas devem ser feitas, se vê com seus caminhos já definidos. “Quando tu chegas aos 50, as escolhas já foram feitas, tu já erraste, acertaste, tiveste pelo menos uma grande relação na tua vida, casou, escolheu uma profissão, trocou de profissão. Enfim, já tiveste estrada suficiente para fazer várias tentativas. E chegar aqui agora se conhecendo melhor e já com algumas coisas estruturadas, representa uma situação de maior liberdade do que quando a gente tem 18 anos e não sabe nada ainda”, analisa. Apesar das perdas como o frescor, a saúde e a juventude, considera a idade gratificante da mesma forma, mas com um outro tipo de gratificação. E a ideia de saber que o tempo está mais curto à frente, pode ser revertida como uma forma de melhor aproveitar a vida. “Isso é extremamente interessante, porque tu não perdes mais tempo com desperdício, com o que não te serve, com o que é improdutivo. Tu vais mais na boa, levando aquilo que realmente importa e isso é até um convite para a autenticidade”. Quanto ao seu futuro profissional e pessoal, não tem muito planejamento, além de seguir fazendo o que gosta. Até porquê, acredita que já realizou muito mais do que poderia sonhar. “Se as coisas continuarem como estão, eu já estou de joelhos agradecendo”, assegura.

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